Os preços mudam mesmo à segunda-feira?
Na prática, sim, mas não por obrigação. Os preços são livres e cada posto decide o seu. O estudo da ERSE sobre a formação dos preços, pedido pelo Governo em julho de 2026, diz que os operadores são livres de fixar os preços e que não estão obrigados a alterá-los num dia específico.
O que a ERSE observa, no mercado nacional, é uma prática generalizada de revisão semanal, habitualmente no início da semana, tendo por referência a evolução das cotações internacionais e dos fretes marítimos na semana anterior. Em 2026 junta-se a isto uma componente fiscal: a taxa de ISP tem sido ajustada por portaria com efeito à segunda-feira, como vê mais abaixo.
O que é que faz o preço subir ou descer de uma semana para a outra?
O principal motor é o preço lá fora do gasóleo e da gasolina já refinados, e não apenas o do petróleo. A ERSE conclui que as cotações internacionais dos produtos refinados são o principal determinante da evolução dos preços dos combustíveis em Portugal. Mesmo entre março e julho de 2026, um período de grande volatilidade, a correlação entre o preço de pórtico e a média das cotações da semana anterior manteve-se sistematicamente acima de 0,95, segundo o mesmo estudo.
Atenção ao que isto mede: é o preço de pórtico antes de impostos, o preço a que o combustível sai do depósito para o posto, e não o preço na bomba que vê no ecrã. O estudo também não inclui descontos de campanha.
A lógica por trás disto é a paridade de importação: mesmo o combustível produzido na refinaria nacional vale o que custaria comprar um equivalente nos mercados internacionais, mais o transporte e a logística para o pôr em Portugal. Na Europa, esses produtos são normalmente valorizados pelas cotações da região de Amesterdão, Roterdão e Antuérpia, conhecida por ARA.
Daí que gasóleo e gasolina possam andar em sentidos diferentes na mesma semana. Cada um tem o seu mercado, com a sua oferta e procura, e pode afastar-se do caminho do petróleo bruto.
Como se transforma uma cotação em dólares num preço em euros por litro?
As cotações vêm em dólares por tonelada e o que paga é euros por litro. A conversão tem dois passos: passar dólares a euros com o câmbio, e passar toneladas a litros com a densidade do produto. É assim que a ERSE constrói a componente de aprovisionamento do seu Preço Eficiente: cotação Platts FOB ARA, em dólares por tonelada, convertida com a taxa de câmbio de referência do Banco Central Europeu e com a densidade, em dados diários.
O câmbio pesa porque o petróleo e os seus derivados são negociados sobretudo em dólares. Segundo a ERSE, uma depreciação do euro aumenta o custo, em euros, de uma mesma cotação em dólares, e uma apreciação do euro faz o contrário.
As taxas do BCE são publicadas em dias úteis, por volta das 16h00 da hora central europeia, o que corresponde a cerca das 15h00 em Lisboa, exceto nos dias de encerramento do TARGET. O BCE indica que são divulgadas apenas a título informativo.
Porque é que o preço desta semana depende da semana passada?
Esta é a forma como a ERSE modela o mercado, não uma decisão que se possa atribuir aos operadores. No estudo, o preço nacional de cada semana é relacionado com a cotação internacional média da semana anterior, procurando refletir o ciclo habitual de atualização dos preços. A ERSE avisa que a "primeira semana" do modelo não significa que o mercado tenha ficado uma semana sem reagir.
Também por isso a imprensa costuma noticiar, no fim da semana, estimativas para a segunda-feira seguinte. A CNN Portugal, por exemplo, noticiou a 2 de outubro de 2026 que a descida prevista pela ACP para a segunda-feira (3 cêntimos no gasóleo e 3,5 cêntimos na gasolina) ficou abaixo do que tinha sido avançado na véspera (3,5 e 4,5 cêntimos). A notícia não explica a diferença. São estimativas sobre preços médios, e os preços finais resultam do que cada posto pratica.
Há ainda um pormenor útil: a ERSE refere que a transmissão não ocorre necessariamente de forma integral e simultânea em cada semana, e que podem existir desfasamentos temporários, sobretudo em períodos de maior volatilidade, sem que isso seja, por si só, sinal de mau funcionamento do mercado.
Quanto da mudança da semana aparece logo na segunda-feira?
Muito, mas convém ler bem o número. Na análise da ERSE a 186 semanas, entre 2 de janeiro de 2023 e 26 de julho de 2026, entre 96% e 97% da resposta estimada até domingo, para essa semana, já se encontrava refletida à segunda-feira, nas subidas e nas descidas, tanto no gasóleo como na gasolina. A própria ERSE avisa que isto não significa que o efeito integral de uma variação das cotações se esgote nesse momento: parte do ajustamento pode prolongar-se pelas semanas seguintes.
Sobre a velha ideia de que os preços sobem como foguete e descem como pena, o estudo não encontra um efeito persistente. Na gasolina 95 não há diferenças estatisticamente significativas entre subidas e descidas. No gasóleo, a descida é inicialmente um pouco menos intensa. Numa simulação em que a cotação sobe ou desce 10 cêntimos por litro, uma subida custaria cerca de 2,50 € num abastecimento de 50 euros (cerca de 23,9 litros de gasóleo), e uma descida pouparia cerca de 2,28 €. A diferença de 22 cêntimos na primeira semana desce para cerca de 11 cêntimos ao fim de quatro semanas e deixa de ser estatisticamente demonstrável. São resultados médios do período analisado, e não dizem como se comporta cada posto.
Porque é que 3 cêntimos antes de impostos viram mais de 3 cêntimos na bomba?
Por causa dos impostos. Em Portugal continental, ao preço antes de impostos juntam-se o ISP, o adicionamento sobre as emissões de CO2 (a taxa de carbono) e o IVA. O ISP e a taxa de carbono são impostos específicos, expressos em montantes por litro e não em percentagem, e o IVA, de 23%, incide sobre o preço antes de impostos e também sobre esses dois impostos.
A consequência, segundo a ERSE, é que uma variação de 1 cêntimo por litro numa componente tributável se traduz, quando integralmente repercutida, numa alteração de 1,23 cêntimos no preço final. Como exercício de aritmética, uma descida de 3 cêntimos antes de impostos dá cerca de 3,69 cêntimos de descida ao consumidor, se o ISP e a taxa de carbono não mudarem nessa semana e a descida for integralmente repercutida.
Repare também que o IVA varia sozinho com o preço, ao passo que o ISP e a taxa de carbono dependem de regras próprias: o ISP é fixado por portaria do Governo, e a taxa de carbono é determinada em função do preço das licenças de emissão e dos fatores de emissão. A ERSE nota que, desde março de 2026, o adicionamento de CO2 permaneceu constante, pelo que as alterações da fiscalidade nesse período vieram do ISP. Nas semanas em que o desconto do ISP é reduzido, a descida na bomba fica abaixo daquela conta.
O ISP em 2026: um desconto que também é revisto à segunda-feira
Em 2026 há uma peça extra. Em março, o Governo anunciou um mecanismo temporário de ajustamento do ISP, para situações em que os preços aumentassem mais de 10 cêntimos por litro face aos preços médios de 2 a 6 de março. A ideia, descrita na própria portaria, é devolver através do ISP a receita adicional de IVA. Segundo a ERSE, o mecanismo foi aplicado pela primeira vez a 9 de março ao gasóleo e, uma semana depois, à gasolina.
Desde então o desconto tem sido revisto semanalmente, acompanhando os preços internacionais, com portarias que são publicadas ao fim da semana para vigorarem na segunda-feira seguinte. Como exemplo datado, a Portaria n.º 404-A/2026, de 4 de setembro, fixou, em Portugal continental, descontos de 96,49 € por 1000 litros no gasóleo e de 75,48 € por 1000 litros na gasolina, com entrada em vigor a 7 de setembro, uma segunda-feira, e a taxa de ISP resultante ficou em 265,11 € por 1000 litros no gasóleo e 422,04 € por 1000 litros na gasolina. Esses valores já foram substituídos.
Para a segunda-feira 5 de outubro de 2026, a Portaria n.º 448-A/2026/1, publicada no Diário da República na sexta-feira, 2 de outubro, fixou descontos de 97,20 € por 1000 litros no gasóleo e de 69,37 € por 1000 litros na gasolina, e taxas de ISP de 264,40 € e 428,15 € por 1000 litros. Como o desconto muda todas as semanas, os valores em vigor quando ler isto podem já ser outros.
O efeito, nas palavras da ERSE, foi modificar parcialmente a transmissão dos custos para o preço final: nas subidas, as reduções do ISP atenuaram o aumento, e nas descidas, a reversão parcial dessas reduções limitou a descida paga pelos consumidores.
Como acompanhar a variação semanal no combustivel.com.pt
O que mostramos vem do portal da DGEG, onde a atualização dos preços é da responsabilidade dos titulares da licença de exploração de cada posto. Isto quer dizer que o preço que vê depende do que cada posto comunica, e por isso convém olhar para a data indicada junto de cada valor.
Para ver o efeito da segunda-feira, abra a página Histórico, onde encontra o gráfico diário do preço médio e a tabela "O que mudou em cada segunda-feira". Para o valor de hoje do gasóleo, vá à página do gasóleo. A ERSE observou que, no período que analisou (até julho de 2026), as companhias petrolíferas anunciaram em média preços mais altos do que os operadores low cost e os hipermercados. Essa comparação é por segmento e não por marca, mas se quiser ver como se posicionam as marcas hoje, a página Marcas compara-as com dados da DGEG. E se quer o posto mais barato junto de si, use a página Perto de mim.
Este artigo explica como a variação nasce. Não prevê a próxima, e o preço na bomba é o que manda: confirme sempre no posto. Se quiser ir à fonte, a ENSE publica relatórios semanais sobre os preços dos combustíveis em Portugal e na Europa.





